Este espaço é desaconselhável a menores de 21 anos, porque a história de nossos políticos pode causar deficiência moral irreversível.
Este espaço se resume
, principalmente, à vida de quengas disfarçadas de homens públicos; oportunistas que se aproveitam de tudo e roubam sem
punição. Uma gente miúda com pose de autoridade respeitável, que
engana o povo e dele debocha; vende a consciência e o respeito por si próprios em troca de dinheiro sujo. A maioria só não vende o corpo porque este, além de apodrecido, tem mais de trinta anos... não de idade, mas de vida
pública.


OPINIÕES PESSOAIS

quarta-feira, 17 de maio de 2017

MENTIRA, a verdade desmoralizada

Quando devo mentir? 

ROBERTO DAMATTA

 

Administradores públicos eleitos ou nomeados, nem sempre por mérito ou capacidade, sempre mentiram e sabem que a mentira é o código corrente quando se trata de governar

 
-Sempre. Mesmo na dúvida.
 
 
— Mas as dúvidas existem. Devo, mesmo assim, mentir?
 
 
— O silêncio é possível. É um direito — como nos Estados Unidos, que tanto nos atrapalham com sua liberdade-com-igualdade, enquanto nós temos liberdade-com-privilégio. Mas não se esqueça do velho adágio: “Quem cala, consente”. Portanto, cuidado com o silêncio.
 
 
O calar tem um significado cultural negativo. Pode ser visto como medo, culpa, vergonha ou arrependimento.
 
 
— Os poderosos sempre mentem. É deles o privilégio de não dizer a verdade, que seria obrigatória, porém, aos comuns. A gente como você eu...
 
 
— Os administradores públicos eleitos ou nomeados, nem sempre por mérito ou capacidade profissional, sempre mentiram e sabem que a mentira é o código corrente quando se trata de governar aquilo que, sendo de todos, não é de ninguém.
 
 
— Ou melhor — permita-me o adendo — seria até a Lava-Jato. É justamente essa operação e os seus desdobramentos que têm colocado em causa os privilégios embutidos nos cargos públicos. São tantos que nem sendo criminoso você vai preso. Há um exagero de privilégios.
 
 
— Então o “povo brasileiro”, o dono de tudo, é quem paga pelas mentiras.
 
 
— Claro. Só agora se tem cogitado de incluir o povo como sujeito. Aliás, lembro que mentir em autodefesa é legal. Se você faz um malfeito, você fala ou silencia?
 
 
— Depende...
 
 
— Não, meu caro, você nada diz. E assim fazendo você deixa pra “polícia”. Como bem argumentou o ex-presidente L---, com excelência técnica e conhecimento, ninguém confessa o crime até a sua descoberta. E, mesmo assim, o malfeito deve ser enquadrado pela mentira, que, reitero, é um direito do nosso Código Penal que — pasme! — busca a verdade!
 
 
— Acho que as confissões católicas treinam a mentir. Você já se confessou?
 
 
— Muitas vezes...
 
 
— Mentiu para o padre?
 
 
— Acho que omiti mais do que menti...
 
 
Omissão é camuflagem. Os pecados “mais cabeludos” — como se dizia — eram escamoteados, e assim o ambíguo foi instituído como um valor. O romance de Machado de Assis “Dom Casmurro” é só na aparência um livro sobre um marido machista, desconfiado, inseguro, injusto e ciumento. Dom Casmurro é, de fato, uma meditação sobre a ambiguidade que permeia um mundo onde escravos eram amigos leais e amigos podiam trair para salvar a própria pele. Delatavam, contrariando as regras mais sacrossantas da amizade. Quando testemunhamos as colaborações premiadas, estamos testemunhando o rompimento com um axioma básico do compadrio no Brasil.
 
 
 
— Antigamente, tínhamos um sistema no qual o fingimento era premiado, e só os subordinados eram presos. Houve uma transformação expressiva. Hoje, qualquer um pode ser preso. Um tabu hierárquico foi rompido. A demanda hoje em dia é o fim das leis especiais que eram aplicadas de acordo com a posição social e os cargos. Essa é a revolução que vocês — mais ou menos conscientemente — estão fazendo.
 
 
— Estamos liquidando o enorme espaço entre a verdade e a mentira. Algo como o purgatório?
 
 
— Com certeza. Veja bem: o purgatório nada mais é do que a criação de um lugar entre o certo e o errado. O medievalista francês Jacques Le Goff acentua como o purgatório é a institucionalização de um movimento no qual a Igreja controla almas trocando a remissão de pecados por orações e indulgências.
— Sociologicamente, o purgatório é a concretização teológica da reciprocidade que obriga a devolver presentes e favores. As almas do purgatório demonstram — como você mesmo já afirmou no seu livro “A casa e a rua” — que, no Brasil, há um contrato entre os vivos e os mortos. Uns atuam sobre os outros de modo que a morte mata, mas os mortos não morrem.
 
 
Pela mesma lógica, a ausência de prisão para os criminosos torna os honestos seus perpétuos reféns. O não desmascaramento da mentira evidente desmoraliza a verdade. Sem saber, vocês estão fazendo a revolução de separar emaranhados, essa parte obscura do vosso mundo político-social, todo ele fundado na confusão entre o informal e o formal, legitimado pelo compadrio purgatoriano que liga os fortes com os fracos, os amigos com os inimigos e, na confusão facilitada pelos impedimentos legais, salvam-se todos.

 
— Daí esses abusos formais dos “tudo foi feito na forma da lei” e dos “eu não sabia de nada” e “não conhecia ninguém”, que não combinam com os controles autocráticos do PT e da personalidade de um chefe que, na audiência com o juiz Moro, mal disfarçava a sua indignação de ser inquirido na forma da lei. Porque a lei não era para ele...

 
Se separar a verdade da mentira é um dever, não mentir é uma revolução.
 
 
Roberto DaMatta é antropólogo


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De vítima a mártir: os muitos papéis de L---

no depoimento à Lava Jato