Este espaço é desaconselhável a menores de 21 anos, porque a história de nossos políticos pode causar deficiência moral irreversível.
Este espaço se resume
, principalmente, à vida de quengas disfarçadas de homens públicos; oportunistas que se aproveitam de tudo e roubam sem
punição. Uma gente miúda com pose de autoridade respeitável, que
engana o povo e dele debocha; vende a consciência e o respeito por si próprios em troca de dinheiro sujo. A maioria só não vende o corpo porque este, além de apodrecido, tem mais de trinta anos... não de idade, mas de vida
pública.


OPINIÕES PESSOAIS

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Prédio de bacana - Maria Ribeiro (POPULISMO)

 

Somos um país livre, você dirá,

me chamando de esquerda caviar

 
Maria Ribeiro
 
 
Moro em um “prédio de bacana”, como se dizia antigamente. Já me acostumei às babás de uniforme branco no parquinho, aos motoristas lavando carros nos finais de semana, aos porteiros de terno e gravata mesmo no auge do calor carioca. Welcome to Brasil, parceiro. Aqui tem carnaval, Flamengo, Copacabana. Aqui tem Ronaldinho, café, Carmen Miranda. Aqui tem “pois, não, doutor” e “tem, sim, senhora”. E aqui tem a melhor música do mundo. Mas somos um país livre, você dirá, me chamando de esquerda caviar. Cada um vive a vida como melhor lhe convier.
UNS ROUBAM, EMBORA NEM PRECISEM LESAR QUEM GANHA MUITO MENOS, POIS ISSO LHES CONVÉM. 
 
 
É verdade, eu responderei, com gosto. Mas a escolha pressupõe conhecimento, confere? Fui criada jogando tênis em um clube em Ipanema que se vangloriava de só ter, em seu quadro de sócios, pessoas “da sociedade” — o que quer que isso signifique —, e achava absolutamente normal ter em casa uma cozinheira que via a filha a cada 15 dias. Estudei em colégios caros e nunca havia me dado conta da ausência de negros nas salas de aula. Não tinha idade e nem repertório pra perceber que reproduzia, em minha própria casa, um país desigual.
 
 
Na faculdade, um pouco mais esperta — mas não muito — percebi, que além do racismo, havia a questão de gênero, e que, mesmo com todo o conhecimento, uma professora poderia ser demitida por “justa causa” pelo simples fato de ter uma coluna falando de sexo no jornal. Um dos grandes arrependimentos que tenho na vida é de não ter brigado pela permanência da Regina. Nas aulas de O Homem e O Fenômeno Religioso a gente não aprendia a ser solidário. Sororidade, então, era tipo a mochila voadora dos Jetsons, mais futuro, impossível.
 
 
Mas isso foi nos anos 90. Hoje, quem tem 20 anos sabe que pode ir pra rua (SÓ SE FOR PARA 'SE ENCONTRAR' COM UMA BALA PERDIDA!), que pode escrever no Twitter, que pode fazer um canal no YouTube, que pode organizar um movimento pelo Facebook. A democracia chegou à comunicação, mas pra produzir e receber conteúdo você precisa estudar. E pra estudar você precisa de estrutura. De saneamento. De transporte. De
família. E de identidade. Você precisa, sobretudo, de identidade. Você precisa ter certeza de que você não é menos do que ninguém, independentemente da sua conta bancária, da sua idade e da cor da sua pele.
QUEM SERIA MELHOR ATENDIDO? UM NEGRO ELEGANTE OU UM POBRE MALTRAPILHO, MAS BRANCO? O problema social está mais na cor da pele ou no 'bol$o' ?
 
Corta. Outro dia recebi em meu apartamento um casal de amigos pra jantar. Ela, branca, e, ele, negro. Quase na sobremesa e um pouco constrangida, minha amiga contou que teve que dar o número do seu documento de identificação pra entrar no condomínio. Oi? Desci pra conversar com o rapaz “da segurança”, que, muito simpático, me explicou que quem entra sem carro é mesmo obrigado a fornecer os dados para a portaria. São ordens de cima, ele disse, tem muita gente circulando. “E quem entra de carro?” — perguntei. Quem entra de carro não precisa, ele me explicou. SUPONHO QUE AS ORDENS TENHAM SIDO DADAS POR UM INGÊNUO, PARA NÃO DIZER UM IDIOTA.
 
 
Lembrei do Joesley. Que deve ter vários carros. Um mais caro que o outro. Joesley achou que subir na vida era ficar rico. Ter seu próprio avião, uma mulher jovem e linda, apartamento em Nova York com vista pro Central Park. Que é mesmo um parque delicioso, e que, durante anos, foi minha resposta para o “Onde você gostaria de morar”, do questionário Proust.
 
 
Já me submeti várias vezes ao questionário Proust  (http://www.jrmcoaching.com.br/blog/questionario-proust-perguntas-poderosas-de-autoconhecimento). As perguntas, respondidas pelo autor francês aos 18 anos, eram um passatempo comum entre adolescentes do século XIX. Qual a sua noção de felicidade? Onde gostaria de morar? Como gostaria de morrer? O que mais admira em uma mulher? E em um homem?
 
 
As questões, tão simples quanto certeiras, sempre foram uma espécie de retrato 3x4 da minha personalidade, e, assim como meus passaportes, guardam uma pessoa diferente a cada caderno preenchido, o que sempre me enternece de alguma forma.
 
 
Desde os 30 acho que sei minimamente quem sou, e, hoje, com mais ou menos duas mil horas de Freud no currículo, já não tenho medo de admitir que algumas marcas jamais irão embora, e que alguns defeitos já atravessam governos inteiros, como o amor por uma cidade tão óbvia quanto a do café da manhã da Audrey Hepburn. Por outro lado, perdi o medo de perder e de dizer que não sei. Não sei mais quase nada a respeito do futuro, mas sei que, quanto mais aprendo, mais livre eu sou.
 
 
Moro em frente à praia. Já me acostumei com o pôr do sol na Pedra da Gávea, com a maresia grudando as páginas dos meus livros e com o bullying dos corredores felizes das sete da manhã. Não sabia que o mar me fazia tão bem e que a rua me era tão cara, mas não me conformo que o meu bairro seja dividido em dois.
 
 
Eu não fui na passeata domingo. Mas deixo aqui meu protesto tímido, como dizia o Drummond. No meu próximo questionário, vou escrever que quero morar em um lugar onde os pedestres sejam reis, e que bacana signifique conviver com o vizinho. Daqui de São Conrado Ocidental, olhando pra São Conrado Oriental, torço pra que esse muro caia, que o Joesley seja preso e que o Temer saia por respeito às aulas de História que o seu filho terá. ELA ESTARÁ ENSINANDO SEU FILHO QUE FOI O  EX-PRESIDENTE E SEU PARTIDO QUE ESCOLHERAM TEMER PARA A VICE-PRESIDÊNCIA?  ESTARÁ ENSINANDO SEU FILHO QUE O EX-PRESIDENTE JUROU DE PÉS BEM JUNTINHOS QUE ACABARIA COM A MISÉRIA, QUE AUMENTOU?  ELA DIZ A SEU FILHO QUE É DA DESIGUALDADE SOCIAL QUE SOBREVIVE O POPULISMO ?